EDITORIAL : Regina questiona recursos, mas obras e milhões destinados a São Leopoldo colocam discurso da vice sob escrutínio

  • por Redação
  • Friday, 02 de October de 2026
Candidata a deputada federal critica administração que integrou durante o primeiro ano; enquanto Simone Dutra anunciou R$ 21 milhões em emendas parlamentares articuladas, levantamento não encontrou balanço público que atribua à vice valor semelhante em recursos captados diretamente por sua atuação.(Foto: Divulgação)

 

As críticas feitas pela vice-prefeita de São Leopoldo e candidata a deputada federal Regina Caetano (Podemos) ao governo Heliomar Franco levantam uma pergunta inevitável: como separar os problemas que ela agora atribui à administração daqueles ocorridos quando ela própria fazia parte diretamente do governo?

Regina não acompanhou o primeiro ano da gestão como observadora. Foi eleita na mesma chapa de Heliomar, assumiu a vice-prefeitura e recebeu também o comando da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turístico e Tecnológico (Sedetec).

Agora, depois do rompimento político e em plena campanha para a Câmara dos Deputados, passou a questionar recursos, projetos e decisões da administração da qual participou.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Regina pergunta onde estão recursos anunciados para São Leopoldo e onde foram aplicados. Também afirma que projetos importantes estariam sendo impedidos de avançar e diz existir “uma pessoa que comanda a cidade, que não foi eleita”, sem identificar nominalmente essa pessoa no trecho analisado.

As declarações são fortes. Por isso, também exigem comprovação.

Regina estava no governo quando resultados foram apresentados

Em dezembro de 2025, Regina estava ao lado de Heliomar na apresentação do balanço do primeiro ano da administração.

Entre os números apresentados pelo governo estavam R$ 17 milhões em renegociações pelo Refis, R$ 250 milhões negociados com Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, R$ 25 milhões em modernização da gestão junto ao BRDE, R$ 40 milhões arrecadados em dívida ativa e R$ 41 milhões em créditos com a União para investimentos.

Também foram apresentadas ações de prevenção contra enchentes, intervenções em casas de bombas e diques e serviços de drenagem.

Portanto, parte dos resultados hoje colocados sob questionamento já fazia parte do discurso público da administração quando Regina ocupava simultaneamente a vice-prefeitura e a Sedetec.

Se a cobrança é por recursos, ela vale para todos

Regina também passou a questionar onde estão os recursos anunciados para São Leopoldo.

A cobrança é legítima. Valores anunciados precisam ser acompanhados até a liberação e execução. Mas o mesmo critério precisa valer para todos.

A administração divulgou, por exemplo, emendas destinadas ao município e atribuiu a Simone Dutra participação na articulação política de parte desses recursos. Entre os valores apresentados estão R$ 400 mil destinados à saúde da mulher e outros R$ 500 mil para equipamentos do Centro de Saúde Feitoria.

Também foi divulgado um conjunto de aproximadamente R$ 21 milhões em emendas articuladas junto a parlamentares.

Isso não significa que os R$ 21 milhões estejam integralmente depositados ou executados. Indicação, empenho, pagamento e aplicação são etapas diferentes e precisam ser verificadas individualmente.

Os recursos destinados a São Leopoldo vão além dos valores já citados. Somente para o Hospital Centenário (HC), o prefeito Heliomar Franco anunciou cerca de R$ 2 milhões destinados pelo deputado federal Luciano Zucco para a aquisição de um novo tomógrafo, equipamento que deverá ampliar a capacidade de diagnóstico e agilizar atendimentos, inclusive na área oncológica.

Há ainda outros repasses destinados ao município por diferentes parlamentares. Entre os investimentos relacionados ao atendimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), São Leopoldo também foi habilitada em 2026 para receber recursos destinados à implantação e ao funcionamento do CAS/TEAcolhe.

O conjunto desses valores reforça a necessidade de que o debate sobre recursos considere individualmente cada emenda, sua origem, finalidade e estágio de execução. Sobre os R$ 800 mil que você informou terem sido destinados por Zucco ao CAS/TEA, esse valor pode ser acrescentado nominalmente assim que houver a identificação documental da emenda, evitando confundi-lo com outros repasses do parlamentar para a saúde de São Leopoldo.

Mas existe uma diferença importante entre questionar a execução de um recurso e afirmar ou sugerir que os valores não existem. Emendas com autores, valores e finalidades identificados podem ser fiscalizadas justamente porque deixam registros.

E qual é o balanço de Regina?

Se Regina cobra transparência sobre recursos, sua própria atuação também pode ser submetida ao mesmo critério.

No levantamento realizado para esta reportagem, não foi localizado um balanço público consolidado mostrando quanto a vice-prefeita conseguiu captar diretamente para São Leopoldo em emendas ou outros recursos durante sua participação no governo.

Isso não significa afirmar que Regina não tenha conseguido nenhum recurso.

Significa que, até o momento, não foi encontrado nas fontes consultadas um valor consolidado que possa ser diretamente atribuído à articulação dela.

A diferença é importante: em jornalismo, ausência de comprovação não pode ser transformada automaticamente em comprovação de ausência.

Sedetec teve ações, mas resultados também entram na comparação

Também seria incorreto afirmar que Regina passou pela Sedetec sem trabalhar ou sem apresentar qualquer resultado.

Durante sua gestão, a pasta registrou iniciativas de empreendedorismo, inovação, desenvolvimento econômico e qualificação profissional.

A digitalização de documentos municipais, por exemplo, começou como projeto-piloto na Sedetec. A própria Prefeitura informou que aproximadamente 4 mil arquivos foram digitalizados já no primeiro dia.

O balanço da pasta também apresentou 22 visitas do Sedetec nas Empresas, mais de 100 pessoas atendidas em ações relacionadas ao MEI e aproximadamente 300 estudantes envolvidos no Conectando Saberes. São ações que precisam ser reconhecidas.

Mas elas também permitem uma comparação objetiva entre o que Regina entregou enquanto esteve à frente de uma secretaria e aquilo que agora cobra do restante da administração.

Saída da Sedetec marcou a ruptura

A mudança ocorreu em 30 de janeiro. Regina anunciou nas redes sociais que estava deixando o comando da Sedetec e atribuiu a decisão a divergências com Heliomar e Simone sobre mudanças na estrutura da secretaria. Ela afirmou ainda que a pasta havia reduzido despesas durante sua gestão.

A Prefeitura apresentou outra versão. Em nota, classificou a saída como uma decisão “pessoal, isolada, sem diálogo com a gestão” e afirmou que as alterações administrativas haviam sido discutidas anteriormente com Regina.

Regina abandonou o cargo de secretária, mas permaneceu vice-prefeita. Poucos dias depois, Valmir Pizzutti foi anunciado para assumir a Sedetec. A partir dali, o distanciamento aumentou e acabou chegando ao cenário eleitoral.

Governo continuou anunciando obras

Depois da ruptura, a administração Heliomar continuou apresentando projetos e investimentos.

Na prevenção contra enchentes, a Prefeitura divulgou em julho novas medidas envolvendo casas de bombas, bombas anfíbias, diques, desassoreamento e intervenções em diferentes pontos da cidade. A administração também afirmou que São Leopoldo havia iniciado obras relacionadas à reconstrução após a enchente de 2024.

Esses investimentos não significam que todos os problemas da cidade estejam resolvidos. Significam que críticas sobre inexistência de ações precisam ser confrontadas com aquilo que efetivamente está contratado, em execução ou concluído.

Esse é o mesmo padrão que deve ser aplicado às realizações reivindicadas pelo prefeito, por Simone, por Regina ou por qualquer outro agente político.

O rompimento também aparece politicamente

A trajetória de Regina mudou significativamente em poucos meses. Ela começou o mandato ao lado de Heliomar, comandou a Sedetec e participou de atividades públicas com o prefeito e Simone. Em novembro de 2025, por exemplo, os três estiveram juntos na Marcha para Jesus, evento que também contou com deputados federais e estadual.

Meses depois, Regina deixou a secretaria, aprofundou as divergências políticas e passou a criticar publicamente a administração.

Até dentro do PP houve posições diferentes após sua saída. O presidente estadual da legenda, Covatti Filho, manifestou apoio a Regina, enquanto o vereador Jaíson Nardes, integrante da executiva municipal do partido, reafirmou alinhamento com Heliomar.

Isso mostra que o rompimento existiu, mas também impede simplificações como dizer que absolutamente todos ficaram contra Regina.

Campanha coloca articulação política sob observação

Na campanha para deputada federal, outro aspecto passou a chamar atenção: o forte protagonismo individual de Regina nos materiais divulgados.

Nos vídeos, caminhadas e peças observados para esta reportagem, não existe em destaque. Também é evidente, nessa amostra, a falta de candidatos da disputa majoritária dividindo o material eleitoral com Regina. Isso permite fazer perguntas objetivas.

Quem são hoje as principais lideranças mobilizadas pela candidatura de Regina? Quais candidatos dividem palanque e caminhadas com ela? Qual é sua composição política na disputa majoritária? E que resultados de sua passagem pela vice-prefeitura e pela Sedetec são apresentados como principal credencial para chegar à Câmara dos Deputados?

Críticas colocam também o passado de Regina sob análise

Quanto mais Regina questiona a administração, mais sua própria passagem pelo governo entra no debate.

Isso ocorre porque ela não herdou apenas o cargo de vice-prefeita. Participou da gestão, comandou uma secretaria e esteve ao lado de Heliomar durante o período em que vários dos resultados hoje discutidos começaram a ser apresentados.

Seu rompimento posterior não apaga essa participação. Da mesma maneira, a permanência de Heliomar e Simone no governo não transforma automaticamente todo anúncio da administração em resultado concluído. Recursos precisam chegar ao destino, obras precisam sair do papel e números divulgados precisam ser verificáveis.

É justamente essa comparação que torna o debate mais objetivo.

Regina pode questionar Heliomar e Simone. Heliomar e Simone podem apresentar obras, recursos e resultados em resposta. E a trajetória administrativa de Regina também pode ser examinada pelo mesmo padrão.

No fim, a questão central não é escolher previamente quem está certo. É verificar quem consegue sustentar suas declarações com documentos, recursos efetivamente destinados, obras executadas e resultados concretos.

Esse é o parâmetro que permite ao eleitor avaliar tanto as críticas feitas por Regina quanto as respostas e entregas apresentadas pela administração municipal.

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