Suspeita de favorecimento em contratos milionários de propaganda motiva pedido de investigação na Assembleia Legislativa do RS

  • por Redação
  • Saturday, 08 de August de 2026
Requerimento do deputado estadual Capitão Martim aponta que equipe de campanhas eleitorais do governo controlou licitação vencida por agência parceira, com pagamentos que dispararam mais de mil por cento e uso de verba da reconstrução.(Foto: Dia Dia Com)

 

Um pedido para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi protocolado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul para investigar suspeitas de favorecimento e falta de concorrência justa em contratos de propaganda do governo estadual.

O documento, apresentado pelo deputado estadual Capitão Martim (Republicanos) e direcionado ao presidente da Casa, deputado Sergio Peres, acusa a Secretaria de Comunicação de manter um grupo político que controlava, ao mesmo tempo, o marketing das campanhas eleitorais do governo e as principais decisões sobre os contratos milionários de publicidade do Estado.

O foco da investigação proposta pelo parlamentar é uma grande disputa de empresas realizada no início de 2026, com valor estimado em mais de 15,6 milhões de reais, além de outros contratos semelhantes que, somados, chegam a 46,9 milhões de reais.

Com base em documentos oficiais, o deputado afirma que o processo de escolha foi conduzido por pessoas com fortes laços de amizade e parceria profissional, o que fere o princípio de que o dinheiro público deve ser gerido de forma totalmente neutra e transparente.

 

De acordo com a denúncia, o esquema contava com uma atuação casada de três personagens centrais que participaram das campanhas do grupo político do governo em 2018, 2022 e 2026.

Caio Tomazeli, que foi chefe de campanha, assumiu o cargo de Secretário de Comunicação do Estado e era o responsável final por dar a palavra sobre os recursos das empresas. Ao mesmo tempo, Fábio Bernardi, coordenador de marketing dessas mesmas campanhas eleitorais, é o dono da agência de publicidade House of Creativity, conhecida como HOC, que venceu a disputa.

Para fechar o círculo, Maurício Bozzi Tonetto, fotógrafo oficial do Governador e assessor especial do governo, foi escalado para fazer parte do comitê técnico que dava as notas para escolher a agência vencedora, avaliando justamente a empresa de seu colega de equipe.

O requerimento do deputado Capitão Martim traz provas de que o governo usou dois pesos e duas medidas para julgar as empresas concorrentes. Em abril de 2026, a agência Briviacom foi eliminada do processo por um erro simples: entregou um dos envelopes lacrado com cola, quando as instruções diziam que ele deveria vir aberto para uma checagem inicial.

O governo foi rígido e rejeitou o pedido da empresa, alegando que as regras formais precisavam ser seguidas à risca. Porém, em julho do mesmo ano, a agência HOC cometeu um erro bem mais grave ao esquecer de entregar documentos obrigatórios de contabilidade. Em vez de ser desclassificada, a comissão do governo abriu uma exceção inédita e permitiu que a HOC enviasse os papéis que faltavam por e-mail no meio da própria reunião pública, gerando protestos oficiais de outras quatro agências concorrentes.

Os dados financeiros apresentados no pedido de investigação revelam cifras impressionantes e um crescimento explosivo nos ganhos da agência parceira. Os pagamentos totais do governo para a HOC saltaram de 4,78 milhões de reais em 2023 para 24,89 milhões de reais em 2024, atingindo a marca de 56,99 milhões de reais em 2025.

Isso representa uma alta de 1.090% em apenas dois anos. Nos primeiros cinco meses de 2026, a empresa já havia faturado mais 31,94 milhões de reais, acumulando um total de 118,59 milhões de reais recebidos do Estado nesse período. Outra agência citada no documento, a Escala, também registrou um forte crescimento, recebendo um total de 77,60 milhões de reais entre 2023 e maio de 2026.

O ponto que causa maior polêmica no pedido do parlamentar envolve o uso de verbas que deveriam ir para o socorro da população através do Fundo do Plano Rio Grande, o FUNRIGS. Esse fundo foi criado por lei com o objetivo exclusivo de financiar as ações de reconstrução, adaptação e resiliência do estado após as enchentes de maio de 2024, que se caracterizaram como a maior tragédia climática da história gaúcha.

Pelas regras de funcionamento da lei que criou o fundo, o dinheiro guardado ali tem destinação carimbada e obrigatória, devendo ser usado estritamente para socorrer pessoas atingidas, reconstruir infraestruturas destruídas, como pontes, estradas e escolas, e financiar projetos que previnam novas cheias. A legislação proíbe o desvio dessas verbas para despesas administrativas comuns ou propagandas que não estejam diretamente ligadas ao aviso de emergências reais.

O documento da denúncia comprova que, contrariando essa finalidade humanitária, o governo retirou 26,65 milhões de reais do FUNRIGS entre 2024 e 2025 para pagar publicidade institucional comum, sendo 13,23 milhões de reais repassados para a agência HOC e 13,42 milhões de reais para a agência Escala.

Diante da gravidade dos fatos apresentados, caso a comissão de investigação seja instalada na Assembleia Legislativa para um trabalho inicial de 120 dias, os integrantes do governo do Estado e os gestores da Secretaria de Comunicação terão que responder a perguntas cruciais feitas pelos deputados.

Eles deverão explicar formalmente por que a comissão de licitação usou critérios diferentes, eliminando a agência Briviacom por um envelope lacrado com cola e, ao mesmo tempo, permitindo que a agência HOC enviasse documentos contábeis obrigatórios por e-mail durante a sessão pública.

Também precisarão justificar a participação de um assessor especial e fotógrafo oficial do governador na comissão que avaliou e deu notas para a empresa de publicidade de seu próprio colega de marketing político. Outra resposta exigida será sobre qual é a justificativa técnica e legal para gastar 26,65 milhões de reais do fundo das enchentes com contratos de propaganda institucional, enquanto a prioridade legal do fundo deveria ser a reconstrução de cidades e o socorro às famílias atingidas pelas chuvas.

Por fim, a Secretaria de Comunicação terá que esclarecer como explica o aumento repentino de 1.090% nos repasses de dinheiro público para a agência HOC em um intervalo de apenas dois anos. O requerimento com todos esses questionamentos agora depende da votação dos demais deputados estaduais em plenário para que as investigações comecem oficialmente.

A assessoria de imprensa do Governo do Estado foi procurada pela reportagem do Portal Dia Dia News porém não obteve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para respostas.

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