O "Caminho do Dinheiro" entre o Banco Master e o Metrópoles; Relatório do Coaf detalha triangulação de R$ 27 milhões

  • por Redação
  • Thursday, 09 de April de 2026
Depois de Léo Dias, o Portal Metrópoles aparece na lista de pagamentos do banco de Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação)


Um robusto relatório de inteligência financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), obtido com exclusividade pelo Estadão, expõe as entranhas de uma operação financeira que coloca sob suspeita a relação entre o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro, e o portal de notícias Metrópoles, de propriedade do ex-senador Luiz Estevão.

Entre o final de 2024 e outubro de 2025, a instituição financeira injetou R$ 27.283.800,00 nas contas do veículo de comunicação, em uma dinâmica que o órgão de controle classifica como "atípica" e "inusitada".

A Anatomia do "Débito Imediato"

O ponto central que acendeu o alerta dos analistas do Coaf não foi apenas o montante, mas a velocidade da saída dos recursos.

O relatório descreve um padrão de pulverização de capital: assim que os repasses milionários do Banco Master (muitas vezes via Will Bank) entravam na conta da Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA, os valores eram transferidos em questão de horas ou dias para outras empresas do conglomerado da família de Luiz Estevão.

Essa prática, conhecida no jargão investigativo como "passagem de recursos", é frequentemente associada à tentativa de dificultar o rastreamento do beneficiário final ou à ocultação da origem dos ativos. O Coaf destaca que a movimentação é "incompatível com a capacidade financeira e o faturamento médio mensal" declarado pela empresa de mídia.

O Álibi da Série D vs. Cronologia dos Fatos

Em sua defesa, Luiz Estevão sustenta que o montante refere-se a um contrato de publicidade e naming rights para a transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025.

No entanto, o cruzamento de dados feito pelo Coaf aponta sérios anacronismos:

Antecipação Injustificada: Os pagamentos começaram meses antes de qualquer anúncio oficial sobre direitos de transmissão ou exposição de marca.

Volume Desproporcional: Apenas em janeiro de 2025, o Master enviou R$ 5,7 milhões ao portal, valor considerado exorbitante para cotas de patrocínio de uma quarta divisão nacional, mesmo com inserções digitais.

O Contexto da "Venda Impossível" e o Alinhamento Editorial

Investigadores da Operação Compliance Zero trabalham com a hipótese de que o fluxo financeiro servia como um "seguro de influência".

No período dos repasses, Daniel Vorcaro articulava a venda do controle do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB) — uma operação de alto risco político e financeiro que dependia de aprovação regulatória e apoio da opinião pública local.

O relatório sugere que a manutenção de um fluxo financeiro constante para o maior portal de notícias da capital federal poderia visar a contenção de crises reputacionais em um momento em que o Master já apresentava sinais de fragilidade estrutural, que culminariam na sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro de 2025.

Ramificações: De Leo Dias ao Exterior

O documento não para no CNPJ do Metrópoles. Ele cita repasses diretos ao colunista Leo Dias, peça-chave na audiência do portal, sugerindo que a estratégia de "blindagem" ou "promoção" da imagem do banco e de seus sócios era multinível.

Além disso, a rede de conexões investigada agora cruza fronteiras. Com a autorização da Justiça dos EUA para o rastreio de ativos de Vorcaro, a Polícia Federal busca entender se parte dos R$ 27 milhões que transitaram pelo Metrópoles tem conexão com contas offshore utilizadas para evadir divisas antes da queda definitiva da instituição.

O Outro Lado

O Grupo Metrópoles reitera que todas as transações são lícitas, lastreadas em contratos de prestação de serviço publicitário e devidamente declaradas aos órgãos fiscais.

O Banco Master, agora sob gestão de liquidantes nomeados pelo BC, não comentou o relatório, alegando sigilo bancário e processo judicial em curso.

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