Com erros amadores, brigas por melhor imagem e informações falsas, caso Vitória vira guerra por audiência em vez de informações claras sobre o caso

  • por Redação
  • Wednesday, 12 de March de 2025
Caso da jovem de 17 anos que foi morta virou um show de erros grotescos e primários no jornalismo atual (Foto: Divulgação)

 

Com diversas linhas de investigação, acusações infundadas incluindo o pai e até um relacionamento homoafetivo, pelo menos uma dúzia de suspeitos, três carros e um suspeito preso, o assassinato brutal da jovem Vitória Regina de Sousa, de 17 anos, deu origem a um show de horrores midiático deixando de lado o conceito de informar e dando prioridade à guerra pela audiência jamais visto na história do jornalismo brasileiro.

O espetáculo amador midiático contou com perícias realizadas diante de dezenas de câmeras, jornalistas e televisionadas ao vivo, a divulgação de informação oficial falsa e até briga por espaço para fazer imagens entre profissionais de imprensa em delegacia, marcam uma cobertura jornalistica que de tornou palco do maior fracasso jornalístico jamais visto.

Vitória Regina foi encontrada sem vida no dia 5 de março após passar uma semana desaparecida. O corpo da garota estava decapitado, com diversas marcas de violência e completamente nu. Vitória teve ainda o cabelo raspado e um sutiã amarrado ao pescoço.

A menina havia sido vista pela última vez no último dia 26 de fevereiro, após deixar o trabalho no restaurante de um shopping. Câmeras de segurança gravaram ela caminhando até um ponto de ônibus. Ela desceu sozinha no ponto final, em Ponunduva, bairro onde morava com a família em Cajamarna grande São Paulo. No trajeto, enviou áudios e mensagens para uma amiga dizendo que estava com medo de dois homens que estavam num carro e a assediaram.

Na quinta-feira, 6 de março, um dia após o corpo ser encontrado, o delegado Aldo Galiano, titular da Seccional de Franco da Rocha, disse a jornalistas que suspeitava de um ex-namorado da vítima. A equipe de investigação pediu a prisão do rapaz, que foi negada pela Justiça, sob a justificativa de que não havia elementos a corroborar a medida cautelar. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) chegou a divulgar a informação falsa de que a Justiça havia determinado a prisão, o que foi amplamente replicado pela imprensa.

No mesmo dia, Galiano realizou uma entrevista coletiva em que apresentou as supostas linhas de investigação do caso. Uma delas, segundo o delegado, é que o crime teria relação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O motivo, diz ele, é o fato de que meses antes um homem supostamente ligado à facção teria sido preso na mesma região.

“Há um inquérito apurando essa prisão. Então, a gente está linkando todos esses dados. O que nos falta é fechar os pontos. […] As raspagens do cabelo e a crueldade do ato são um sinal de facção criminosa”, disse.

Na ocasião, ele também levantou a hipótese de que o crime fosse motivado por “talaricagem”, sugerindo que Vitória Regina poderia traído o autor do crime, com quem eventualmente teria um relacionamento. O delegado disse até o nome de um dos ex-namorados da vítima.

Na sexta-feira 7 de março, uma nova hipótese foi divulgada pela polícia à imprensa, a de que o autor do crime seria o atual namorado de um ex-namorado da vítima. O novo suspeito seria, supostamente, integrante do PCC.

Em duas oportunidades na sexta-feira, dezenas de jornalistas que estavam na Delegacia Seccional de Franco da Rocha testemunharam uma equipe da Polícia Científica e papiloscopistas da Polícia Civil realizarem perícias no veículo de um dos suspeitos.

A poucos metros de distância, os jornalistas assistiram aos policiais usando luz azul para encontrar eventuais manchas de fluidos corporais no veículo, coletando fios de cabelo e até colocando cães farejadores para tentar confirmar se Vitória Regina esteve no local.

A cena, foi transmitida ao vivo por emissoras de televisão, que divulgaram informações sobre o caso durante todo o dia. Cinegrafistas que estavam presentes no local chegaram a se desentender enquanto disputavam espaço na delegacia para fazer imagens dos peritos. Fotógrafos conseguiram inclusive identificar que um dos fios de cabelo coletados era loiro e enrolado, característica diferente em relação ao cabelo de Vitória, que era preto e liso.

Enquanto a polícia divulgava hipóteses sobre o que teria acontecido com Vitória Regina, o pai da menina, Carlos Alberto de Sousa, foi informado ao vivo, durante o programa Encontro com Patrícia Poeta na Rede Globo, de que o caso teria sido supostamente esclarecido.

As evidências mais consistentes apontam para Maicol Sales dos Santos, que teve sua prisão temporária (de 30 dias) determinada pela Justiça no sábado, 8 de março. O suspeito compareceu à audiência de custódia no domingo, 9, e permaneceu detido

Ao ouvir a história contada pela apresentadora, o homem ficou sem reação e pediu que ela repetisse. “É um crime passional”, afirmou Patrícia. “Esse Daniel seria namorado do ex-namorado da sua filha. Daniel que tinha um relacionamento amoroso com um ex-namorado da Vitória. Esse Daniel, que o senhor disse que não conhece, teria contado com a ajuda de dois amigos para matar e transportar o corpo da Vitória. Essas são as informações que chegam para a gente”, disse.

Após a repercussão negativa do episódio, a apresentadora se manifestou no Instagram: “E quando nosso foco deveria ser falar sobre combate ao racismo, as pessoas se voltam para picuinhas e deixam um assunto tão importante de lado”.

A suposta conclusão da investigação descrita por Patrícia Poeta não foi confirmada oficialmente pela equipe de investigação ou pela Secretaria da Segurança Pública, os erros contidos pela imprensa que cobre um caso tão grave se sobressaem, falta de checagem, ânsia por furo de reportagem, divulgação de informações que não são confirmadas e a exagerada exposição com equipes no ar, e em terra, deixam de lado o verdadeiro intuito de lado, informar claramente a população sobre o caso e priorizando a guerra pela audiência.

Artigos Relacionados