Carreta Solidária leva refeições, lavanderia e cortes de cabelo ao centro de Porto Alegre e reforça trajetória de dez anos em grandes tragédias

  • por Redação
  • Tuesday, 18 de August de 2026
Estrutura da ADRA, que já esteve em mais de 60 cidades e participou da resposta a algumas das maiores catástrofes recentes do país, deve distribuir cerca de 2,5 mil refeições na Capital; história da atuação humanitária também ficou marcada pela morte do pastor João Nicolau Gonçalves após trabalho voluntário em Rio Bonito do Iguaçu.(Foto: ADRA)

 

A Carreta Solidária da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) está novamente no Rio Grande do Sul. Desde segunda-feira (17), a estrutura está instalada no Largo Glênio Peres, próximo ao Mercado Público, no Centro Histórico de Porto Alegre, para uma ação destinada principalmente às pessoas em situação de rua e às instituições da rede de assistência social da Capital.

Até quinta-feira (20), a previsão é distribuir aproximadamente 2,5 mil refeições. Nos três primeiros dias de atendimento, a programação prevê diariamente 200 lanches pela manhã, 200 almoços e 300 jantares. No último dia, os trabalhos serão encerrados após a distribuição do almoço. A entrega dos alimentos é organizada previamente por meio de senhas.

Além das refeições, a programação oferece serviços de barbearia e corte de cabelo. Outra frente de trabalho ocorre dentro da própria carreta, onde máquinas de lavar e secar estão sendo utilizadas para higienizar cobertores de abrigos infantis e adultos e de instituições que acolhem pessoas idosas.

A expectativa é lavar aproximadamente 500 quilos de peças por dia. O trabalho busca auxiliar principalmente instituições que enfrentam dificuldades durante o inverno para lavar e secar grandes quantidades de cobertores utilizando apenas equipamentos domésticos.

“Em pleno mês de agosto, com frio e chuva, muitos equipamentos sociais têm dificuldade para lavar e secar todos os cobertores. A carreta permite atender parte dessa necessidade e, ao mesmo tempo, oferecer refeições à população em situação de rua”, explicou Cristiano Freitas, coordenador de Emergências da ADRA no Rio Grande do Sul.

A passagem por Porto Alegre ocorre justamente no ano em que a Carreta Solidária completou uma década de atividades. Criada em 2016, a unidade percorreu o Brasil prestando auxílio em enchentes, deslizamentos, temporais, ciclones, rompimento de barragem, tornado e também durante a pandemia de Covid-19.

Segundo balanço divulgado pela própria ADRA em junho de 2026, a estimativa mais recente aponta que a carreta já passou por mais de 60 cidades, ultrapassou 650 mil refeições servidas e chegou a aproximadamente 600 toneladas de roupas lavadas ao longo de dez anos.

Os números mais recentes são superiores aos apresentados em levantamentos anteriores da instituição. Em 2020, quando a carreta completou quatro anos, eram mais de 40 cidades atendidas, 107 mil refeições e 112 toneladas de roupas lavadas.

Já durante a pandemia, somente em Salvador foram mais de 10 mil refeições e cinco toneladas de roupas higienizadas em cerca de 20 dias. No Rio Grande do Sul, naquele período, a unidade também apoiou abrigos destinados ao isolamento de pessoas em situação de vulnerabilidade, com três mil refeições e seis toneladas de roupas lavadas.

Entre as operações que marcaram a história da Carreta Solidária está o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, em 2019. A unidade foi empregada no atendimento às pessoas atingidas e às equipes mobilizadas na região. A própria ADRA cita Brumadinho entre as principais tragédias atendidas pela estrutura desde sua criação.

A carreta também foi deslocada para Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, depois das chuvas e deslizamentos de fevereiro de 2022. Naquela operação, a estrutura chegou com capacidade anunciada para produzir milhares de refeições diariamente, lavar cerca de meia tonelada de roupas e prestar atendimento psicológico às pessoas afetadas. A atuação ganhou repercussão nacional durante a cobertura da tragédia.

Em fevereiro de 2023, outra grande mobilização ocorreu no Litoral Norte de São Paulo, principalmente em São Sebastião, após os temporais que provocaram enchentes e deslizamentos. A Carreta Solidária foi levada até Juquehy. O balanço posteriormente divulgado pela ADRA registrou dez toneladas de roupas lavadas, 1,5 mil refeições quentes, além da entrega de cestas básicas, produtos de higiene e limpeza, colchões, travesseiros, fraldas e milhares de litros de água.

Ainda em 2023, o Rio Grande do Sul recebeu a estrutura durante a resposta ao ciclone extratropical. A carreta foi utilizada em Novo Hamburgo e ofereceu alimentação, lavagem de roupas, atendimento psicológico, kits de higiene e cestas básicas. Naquele momento, o histórico acumulado da unidade já superava 110 mil refeições e 150 toneladas de roupas lavadas em mais de 40 cidades.

A maior tragédia climática da história recente do Rio Grande do Sul voltou a mobilizar a ADRA em maio de 2024. A Carreta Solidária chegou inicialmente a Igrejinha e depois seguiu para São Leopoldo e Canoas, acompanhando as necessidades das regiões atingidas pelas enchentes. Somente nos primeiros dias em Igrejinha foram 1.450 refeições e aproximadamente 2,5 toneladas de roupas lavadas antes do deslocamento para São Leopoldo.

A operação permaneceu no Estado por semanas. Até o fim de junho daquele ano, o balanço da ADRA apontava mais de 14 mil refeições distribuídas e 29 toneladas de roupas lavadas durante a resposta às enchentes. Além da carreta, a logística contou com veículos de apoio. Em uma parceria com os Correios, por exemplo, sete automóveis foram disponibilizados para auxiliar na distribuição das refeições.

A estrutura voltou a ser empregada em novembro de 2025, depois do tornado que devastou Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná. A operação reuniu a Carreta Solidária, veículos para transporte de voluntários e donativos e uma ampla mobilização humana.

Em um dos finais de semana de trabalho, aproximadamente 200 voluntários participaram da reconstrução, entre eles cerca de 80 profissionais ligados à construção civil, como carpinteiros e eletricistas.

Eles chegaram em dois ônibus e dezenas de automóveis. Naquele momento, a carreta já havia lavado mais de duas toneladas de roupas e servido quase duas mil refeições.

A ADRA também mantinha na região mais de dez toneladas de doações, incluindo água, alimentos, produtos de higiene, colchões e cobertores. Parte dos voluntários trabalhou na retirada de entulhos, cobertura e recuperação das casas, enquanto outras equipes ficaram responsáveis pelo atendimento às famílias.

A passagem da ADRA por Rio Bonito do Iguaçu também ficou marcada por uma perda ocorrida poucos dias depois do tornado. O pastor João Nicolau Gonçalves, de 45 anos, morreu em um acidente de trânsito na BR-277, em Palmeira, no Paraná, em 14 de novembro de 2025, quando retornava da missão de auxílio às famílias atingidas pela tragédia.

João Nicolau era diretor da Ação Solidária Adventista (ASA), além de atuar nas áreas de Escola Sabatina e Ministério Pessoal da Associação Central Paranaense da Igreja Adventista. Portanto, embora trabalhasse diretamente ao lado da ADRA durante a operação humanitária, as informações públicas disponíveis apontam que ele não ocupava o cargo de diretor da ADRA. O diretor regional da agência no Paraná naquele período era Günther Wallauer.

Pouco antes da morte, João Nicolau estava diretamente envolvido no trabalho em Rio Bonito do Iguaçu. Ele participou da mobilização de voluntários, da reconstrução de imóveis e da organização de donativos destinados às famílias que haviam perdido praticamente tudo. Registros feitos durante a operação mostram o pastor em meio às equipes que trabalhavam na cidade e ao lado de representantes da ADRA.

O Portal Dia Dia News também acompanhou aquela mobilização e registrou uma das últimas entrevistas concedidas por João Nicolau durante o trabalho humanitário no Paraná. O conteúdo produzido pelo Portal mostrou o pastor ainda em atividade junto às equipes mobilizadas após o tornado, poucos dias antes do acidente fatal. A entrevista acabou se tornando um dos últimos registros jornalísticos de sua atuação na missão de ajuda às famílias de Rio Bonito do Iguaçu.

O acidente ocorreu no km 197 da BR-277 e envolveu três veículos. João Nicolau estava em um Nissan Versa e morreu no local. Outras pessoas ficaram feridas. Conforme informações divulgadas na época, ele retornava de Rio Bonito do Iguaçu e seguia em direção a Curitiba.

Em fevereiro e março de 2026, a Carreta Solidária voltou a ser mobilizada diante de uma grande emergência, desta vez após os temporais que atingiram Juiz de Fora e outras áreas da Zona da Mata de Minas Gerais. A unidade foi enviada para oferecer refeições, lavagem de roupas e atendimento às famílias afetadas por enchentes e deslizamentos.

A operação atual em Porto Alegre também serve como atividade prática para cerca de 100 voluntários que passaram por uma preparação encerrada no domingo (16), no Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), em Taquara. Durante três dias, eles receberam orientações para atuação em emergências e se revezaram nas atividades de cozinha, lavanderia e organização da unidade. A preparação ocorre diante da possibilidade de novos episódios de chuva intensa na Região Sul.

“O treinamento de resposta a emergências que estamos realizando em várias regiões é uma preparação para esse período. Estamos formando equipes de voluntários para atuar junto com a ADRA em possíveis emergências. É uma situação que não gostaríamos que acontecesse, mas para a qual precisamos estar preparados”, afirmou Herbert Boger, diretor da ADRA Brasil.

A Carreta Solidária possui aproximadamente 45 metros quadrados de área interna e reúne cozinha, lavanderia e espaço para atendimento e acolhimento. A estrutura pode ser deslocada para diferentes regiões do país quando uma emergência exige resposta humanitária.

Além do veículo principal, cada grande operação pode envolver ônibus para voluntários, caminhões carregados de donativos e veículos menores para distribuição e logística, dependendo da dimensão da emergência e das parcerias estabelecidas em cada local.

Não há, porém, um balanço público consolidado da ADRA informando um número único de veículos pesados ou de profissionais empregados em todas as operações desde a criação da carreta. Por isso, esses números não podem ser somados com segurança como se representassem uma frota permanente.

O mesmo cuidado vale para o número de pessoas envolvidas. As operações misturam funcionários da ADRA, profissionais especializados, parceiros e centenas de voluntários, com equipes que variam conforme cada desastre.

Em Rio Bonito do Iguaçu, por exemplo, houve uma mobilização de cerca de 200 voluntários em um único fim de semana, enquanto atualmente outros 100 foram preparados no Rio Grande do Sul para atuar na carreta e em futuras emergências.

De Brumadinho a Petrópolis, do Litoral Norte paulista aos ciclones e às enchentes do Rio Grande do Sul, passando pelo tornado de Rio Bonito do Iguaçu e pelos temporais de Minas Gerais, a Carreta Solidária tornou-se uma das estruturas mais conhecidas da atuação emergencial da ADRA no Brasil. Em dez anos, segundo o balanço mais recente da própria organização, são mais de 60 cidades percorridas, mais de 650 mil refeições servidas e aproximadamente 600 toneladas de roupas lavadas.

Agora, estacionada no coração de Porto Alegre, a mesma estrutura utilizada em algumas das maiores tragédias brasileiras dos últimos anos assume uma missão diferente: alimentar pessoas em situação de rua, oferecer cuidados básicos e utilizar sua capacidade de lavanderia para ajudar instituições que precisam manter centenas de quilos de cobertores limpos durante o inverno.

Artigos Relacionados