Documento anterior à Operação Make Up relata pressão sobre produtora de “Dark Horse” para delatar Flávio Bolsonaro

  • por Redação
  • Friday, 11 de September de 2026
Registro feito em cartório uma semana antes das buscas afirma que Karina Gama recebeu contatos sugerindo colaboração premiada contra o candidato à Presidência e temia sofrer medidas judiciais caso recusasse; Flávio Bolsonaro não é investigado na Operação Make Up.(Foto: Divulgação)

 

Um documento registrado em cartório antes da deflagração da Operação Make Up colocou um novo elemento no centro das investigações relacionadas ao filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A empresária Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment e responsável pela produção do longa, afirmou ter sofrido pressões para realizar uma colaboração premiada que pudesse atingir Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.

A declaração foi assinada em 3 de setembro e registrada em cartório em São Paulo no dia seguinte, seis dias antes da operação da Polícia Federal, realizada na quinta-feira (10). O documento acabou sendo encontrado pelos próprios agentes durante as buscas em endereço ligado à empresária.

No registro, de sete páginas, Karina afirma que decidiu documentar antecipadamente os contatos porque passou a temer que pudesse enfrentar problemas judiciais ou até medidas contra sua liberdade caso não aceitasse fazer uma delação.

A empresária relata três episódios ocorridos entre maio e setembro. Segundo ela, as abordagens tinham em comum a possibilidade de uma colaboração premiada e, direta ou indiretamente, mencionavam Flávio Bolsonaro.

O primeiro contato teria ocorrido em maio e envolveria Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney. De acordo com a versão registrada por Karina, Sarney teria oferecido apoio jurídico e mencionado possuir proximidade com o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. Ainda segundo a empresária, ele teria indicado que poderia ajudá-la caso houvesse interesse em realizar uma delação.

Karina deixou registrado, no entanto, que nunca presenciou qualquer conversa entre Fernando Sarney e Flávio Dino e que não possui elementos para afirmar que o ministro tivesse conhecimento ou participação na suposta abordagem.

Fernando Sarney nega as acusações. Ele afirmou não conhecer Karina e disse nunca ter mantido contato com ela ou com outras pessoas para tratar de eventual colaboração premiada relacionada ao filme “Dark Horse”. Também classificou como falsa a afirmação de que teria se apresentado como alguém próximo de Flávio Dino.

O segundo episódio relatado por Karina teria acontecido em 27 de agosto. Desta vez, segundo a empresária, um pastor que seria seu amigo de longa data entrou em contato e mencionou possuir proximidade com integrantes do governo federal e ministros do Supremo. O nome do religioso não foi informado no documento.

Karina afirma ter respondido que não via motivos para realizar uma colaboração premiada porque, segundo sua versão, vinha cooperando com as autoridades e não tinha fatos criminosos para revelar.

Um terceiro contato teria ocorrido em 3 de setembro, justamente na data em que a declaração foi assinada. Segundo Karina, um jornalista teria dito que ela estaria sendo utilizada como “bucha de canhão” pelo candidato, em uma aparente referência a Flávio Bolsonaro.

A empresária afirma ter interpretado a conversa como uma indicação de que poderia sofrer medidas judiciais caso não aceitasse colaborar. O jornalista mencionado no relato é Breno Pires, da revista Piauí.

Ao formalizar o documento, Karina ressaltou que seu objetivo era registrar datas, contatos e acontecimentos antes de qualquer medida posterior. Ela também declarou que não pretendia acusar autoridades ou outras pessoas de crimes sem apresentar provas.

Esse detalhe passou a ter importância após a Operação Make Up porque o documento não foi elaborado como reação às buscas. Ele já estava formalmente registrado antes da chegada dos agentes da Polícia Federal.

A Operação Make Up foi deflagrada no dia 10 de setembro e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. As medidas foram autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.

Entre os principais alvos estavam Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP), que atua como roteirista e produtor-executivo de “Dark Horse”.

A investigação da Polícia Federal apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares. Segundo os investigadores, valores destinados a organizações da sociedade civil teriam sido direcionados para empresas subcontratadas de forma irregular, inclusive sem comprovação da efetiva prestação de determinados serviços.

Uma das linhas investigadas envolve o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, que recebeu recursos de emendas parlamentares destinadas por Mario Frias. A PF investiga o caminho percorrido pelo dinheiro e se parte desses valores acabou chegando à Go Up Entertainment durante o período relacionado à produção de “Dark Horse”.

Uma das suspeitas apuradas é de um possível caminho financeiro de aproximadamente R$ 750 mil entre recursos públicos, empresas intermediárias e a produtora. A investigação, porém, ainda está em andamento e não representa uma conclusão definitiva de que dinheiro público tenha sido utilizado para financiar o filme.

A Polícia Federal investiga possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações. A apuração também analisa movimentações financeiras de centenas de milhões de reais entre empresas que, segundo os investigadores, fariam parte da estrutura investigada.

Karina nega irregularidades e afirma que os recursos foram aplicados corretamente. Mario Frias também rejeita as acusações relacionadas às emendas e sustenta que não houve utilização irregular de dinheiro público na produção cinematográfica.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, não é investigado na Operação Make Up. O candidato aparece no caso por sua participação na captação privada de recursos para “Dark Horse” e, agora, por ter sido citado no documento em que Karina relata as supostas pressões para uma colaboração premiada.

Existe ainda uma investigação paralela relacionada ao financiamento do filme pelo empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Essa apuração está sob relatoria do ministro André Mendonça no STF e é diferente daquela que deu origem à Operação Make Up.

Flávio Bolsonaro reconheceu ter procurado Vorcaro para captar investimentos para o projeto, mas afirma que os recursos destinados ao longa eram privados e nega qualquer acordo envolvendo vantagem ilegal.

A existência do documento registrado por Karina antes da Operação Make Up agora deverá ser analisada pelas autoridades. O ponto central é esclarecer se os contatos relatados realmente ocorreram, quem participou deles e se houve uma tentativa de pressionar a empresária para produzir uma colaboração premiada contra Flávio Bolsonaro.

Até o momento, também não há comprovação de que a Operação Make Up tenha determinado que Karina apagasse, destruísse ou interrompesse a produção de “Dark Horse”. O elemento documentado que veio à tona após as buscas é o relato prévio da empresária sobre supostas pressões para uma delação.

O caso ganha ainda mais repercussão por ocorrer durante a campanha presidencial de 2026 e envolver diretamente uma produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro, um candidato à Presidência e integrantes do atual cenário político nacional.

Agora, além das suspeitas financeiras originalmente investigadas pela Polícia Federal, o conteúdo encontrado durante as próprias buscas abre uma nova frente de questionamentos: saber se Karina Gama efetivamente foi pressionada, antes da Operação Make Up, a fornecer informações contra Flávio Bolsonaro e se houve alguma relação entre essas abordagens e as medidas judiciais adotadas posteriormente.

A cronologia deverá ser uma das peças centrais para esclarecer o episódio. Karina formalizou seu relato em cartório antes da operação, declarou antecipadamente que temia sofrer consequências caso recusasse uma delação e, dias depois, tornou-se alvo de busca e apreensão. A coincidência temporal, por si só, não comprova uma relação entre os acontecimentos, mas torna as alegações da empresária um elemento que deverá ser esclarecido pelas autoridades.

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