Quatro feminicídios em menos de 48 horas elevam para 60 o número de casos no RS em 2026

  • por Redação
  • Tuesday, 06 de October de 2026
Crimes registrados em Alegrete, Barra do Guarita, Porto Alegre e Caxias do Sul tiveram como vítimas mulheres de 21 a 32 anos; em todos os casos, companheiros ou ex-companheiros estão entre os suspeitos.(Foto: Divulgação)

 

O Rio Grande do Sul registrou uma sequência de quatro feminicídios entre a manhã de domingo (4) e segunda-feira (5). Os crimes ocorreram em Alegrete, Barra do Guarita, Porto Alegre e Caxias do Sul e elevaram para 60 o número de feminicídios registrados no Estado em 2026.

Em Alegrete, na Fronteira Oeste, Ana Cristina Pinheiro Milano do Canto, de 21 anos, foi morta a tiros na manhã de domingo. O suspeito é o ex-namorado dela, Ellinton Moura Silva, de 23 anos, soldado do Exército e integrante do 6º Regimento de Cavalaria Blindado (6º RCB). O caso é investigado como feminicídio.

Segundo a Polícia Civil, Ellinton teria saído de uma festa, ido até a unidade militar onde trabalhava e furtado uma arma. Depois, teria seguido até a residência de Ana Cristina, no bairro Assumpção, onde ocorreram os disparos pouco antes das 7h. A investigação aponta que os dois haviam mantido um relacionamento e que Ana Cristina era ex-namorada do suspeito.

A irmã de Ana Cristina, de 29 anos, também foi baleada durante o ataque e encaminhada para atendimento médico. Conforme o registro inicial da ocorrência, a mãe das vítimas ouviu os disparos e encontrou as duas filhas feridas dentro da residência. Ana Cristina chegou a ser encaminhada à Santa Casa de Alegrete, mas não resistiu.

Depois dos disparos, Ellinton teria fugido. Um vizinho ainda tentou impedir a fuga. O suspeito foi localizado pela Brigada Militar por volta das 10h no bairro Praça da Lagoa, aproximadamente um quilômetro distante do local do crime, e preso em flagrante. O Exército também instaurou Inquérito Policial Militar para apurar as circunstâncias envolvendo o armamento.

O segundo feminicídio daquele domingo ocorreu em Barra do Guarita, no Noroeste gaúcho. Noraysis El Carmen Planche, venezuelana, foi morta pelo companheiro durante a manhã. O homem, também venezuelano e de 32 anos, foi preso em flagrante. Até o momento, o nome dele não foi divulgado oficialmente pelas autoridades nas informações consultadas.

O ataque ocorreu por volta das 7h50, na Rua Pelotas, no Centro de Barra do Guarita. Informações divulgadas sobre a ocorrência apontam mais precisamente para as proximidades da esquina das ruas Pelotas e Santiago.

Conforme a Polícia Civil, Noraysis estava em casa quando teria ocorrido uma discussão. Ela saiu do imóvel tentando escapar do companheiro e correu pela rua, mas foi perseguida por aproximadamente duas quadras. O homem a alcançou e desferiu diversos golpes de canivete. Um morador que presenciou a perseguição acionou a Brigada Militar.

Depois do assassinato, o suspeito teria provocado um ferimento no próprio pescoço. Ele foi contido pelos policiais, preso em flagrante e encaminhado ao Hospital Santo Antônio, em Tenente Portela. Segundo as informações policiais iniciais, não havia pedido de medida protetiva nem histórico registrado de violência envolvendo o casal. A motivação continua sendo investigada.

Na madrugada de segunda-feira, a violência chegou à Restinga, na Zona Sul de Porto Alegre. Thamires de Araújo Rodrigues, de 24 anos, foi morta dentro da própria residência. O companheiro dela, Douglas Vinicius dos Santos Bernardo, de 29 anos, foi preso em flagrante e é investigado como autor do crime.

O imóvel fica na Rua Coronel Dastro Dutra, no bairro Restinga. Thamires apresentava ferimentos provocados por golpes de faca e foi encontrada sem vida dentro da residência.

Thamires e Douglas mantinham um relacionamento havia aproximadamente cinco anos e eram pais de duas crianças, de três e cinco anos. De acordo com a Polícia Civil, não havia ocorrências anteriores de violência doméstica envolvendo o casal, e familiares e pessoas próximas inicialmente ouvidas também não relataram episódios anteriores de agressão.

A investigação apura o que aconteceu nas horas anteriores ao assassinato. O casal esteve em uma festa na noite de domingo, onde teria ocorrido uma discussão. Thamires deixou o local antes do companheiro. A Polícia Civil analisa depoimentos e mensagens encontradas no celular do suspeito para reconstruir os momentos anteriores ao crime e esclarecer a motivação. Douglas permaneceu em silêncio durante o depoimento.

Thamires trabalhava com aplicação de cílios, enquanto Douglas atuava como repositor de mercadorias. As duas crianças não teriam presenciado o assassinato. A investigação está sob responsabilidade da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher.

O quarto caso foi registrado em Caxias do Sul, na Serra. Susiele Santos de Brito, de 32 anos, foi encontrada morta na tarde de segunda-feira em uma área de vegetação próxima da Rua Manoel Pedrotti, no bairro Diamantino. Ela era mãe de dois filhos.

Dois homens, de 32 e 35 anos, foram presos em flagrante. Segundo a Polícia Civil, o homem de 35 anos era companheiro de Susiele e é apontado pela investigação como possível mentor do crime. Até a atualização mais recente, a polícia não havia divulgado oficialmente a identidade dos dois presos.

A investigação avançou depois que imagens de câmeras de segurança permitiram identificar um Chevrolet Astra relacionado ao caso. O veículo foi localizado pela Brigada Militar na RS-122, no bairro Nossa Senhora da Saúde. O motorista, de 32 anos, foi abordado e preso. Conforme a delegada responsável pelo caso, ele confessou participação e indicou o companheiro da vítima, que foi preso posteriormente.

A suspeita é de que os dois homens tenham utilizado o veículo para levar Susiele até uma área de loteamento em obras, onde o assassinato teria ocorrido. Um bastão foi apreendido, mas a Polícia Civil trabalha com elementos indicando a utilização de mais de um instrumento e aguarda o resultado das perícias para estabelecer a causa da morte e a dinâmica completa do crime.

Um dos elementos mais graves encontrados durante a investigação foi a mutilação de um dos dedos da mão da vítima. Conforme informações apuradas no caso, o dedo foi encontrado dentro do Astra. Uma das linhas investigativas é de que ele pudesse ser utilizado para desbloquear o celular de Susiele.

A Polícia Civil informou que não havia medida protetiva de urgência em vigor nem boletins de ocorrência anteriores envolvendo Susiele e o companheiro. Familiares e testemunhas ainda são ouvidos para esclarecer o histórico do relacionamento e a motivação do assassinato.

Com a morte de Susiele, o Rio Grande do Sul chegou a 60 feminicídios em 2026. Em Caxias do Sul, este foi o segundo caso do ano classificado como morte motivada por violência de gênero.

A sequência de quatro mortes em aproximadamente dois dias volta a colocar a violência contra a mulher no centro das atenções no Estado. Os casos têm investigações independentes, e caberá à Polícia Civil concluir os inquéritos e reunir as provas que posteriormente serão encaminhadas ao Ministério Público e à Justiça.

Nos casos em que os investigados ainda não foram julgados, eles devem ser tratados como suspeitos ou investigados, preservando-se a presunção de inocência até eventual condenação definitiva.

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