Vorcaro aponta R$ 30 milhões para filme de Lula e afirma que patrocínio ao filme de Bolsonaro foi regular

  • por Redação
  • Friday, 09 de October de 2026
Declarações atribuídas ao ex-controlador do Banco Master reforçam a defesa de Flávio Bolsonaro, contestam acusações sobre o financiamento do filme de seu pai e levantam questionamentos sobre supostos repasses ao Instituto Lula.(Foto: Divulgação)

 

Uma nova revelação envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, trouxe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e integrantes de seu círculo político para o centro das discussões sobre o financiamento de produções cinematográficas. Áudios e documentos atribuídos ao empresário, divulgados nesta sexta-feira (9) pela revista Veja, apontam que ele teria relatado a destinação de aproximadamente R$ 30 milhões em espécie para despesas de um documentário sobre Lula no exterior, além de outros valores ao Instituto Lula.

As declarações surgem em um momento decisivo da campanha presidencial, quando Lula e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno das eleições de 2026. O financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, vinha sendo utilizado politicamente para questionar a relação de Flávio com Vorcaro.

A principal diferença apresentada pelo próprio ex-banqueiro está na forma como os pagamentos teriam ocorrido. Em uma gravação atribuída a ele, Vorcaro afirma que o dinheiro destinado à produção sobre Lula teria sido repassado irregularmente, enquanto os recursos relacionados ao filme sobre Jair Bolsonaro teriam sido destinados a um patrocínio convencional.

“Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”, declarou Vorcaro, segundo a transcrição divulgada.

A declaração reforça a versão apresentada por Flávio Bolsonaro, que sustenta não ter cometido irregularidades na busca por recursos privados para financiar a produção cinematográfica sobre seu pai. O relato também contesta a interpretação de que o patrocínio seria, por si só, prova de uma operação ilegal.

Entretanto, a manifestação do empresário não representa uma absolvição judicial nem encerra as investigações sobre a origem e a destinação dos recursos.

Segundo a reportagem, Vorcaro relatou que as negociações envolvendo o documentário sobre Lula teriam ocorrido por intermédio do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e de seu então sócio Augusto Lima. Parte dos recursos teria sido destinada ao Instituto Lula, enquanto outra parcela seria utilizada na produção cinematográfica.

O documentário mencionado é Lula, dirigido pelo cineasta norte-americano Oliver Stone e lançado em 2024, com entrevistas e relatos sobre a trajetória política do presidente brasileiro.

Nos documentos atribuídos a Vorcaro, o empresário afirma que a negociação estaria relacionada ao interesse do Banco Master em obter acesso a recursos de fundos de pensão, incluindo entidades ligadas ao Banco do Brasil, à Caixa Econômica Federal, à Petrobras e aos Correios.

De acordo com o relato, além dos pagamentos iniciais, teria sido discutida uma cobrança de 10% sobre valores captados pelo banco nessas operações. Caso os negócios alcançassem o volume projetado, a quantia destinada aos intermediários poderia chegar a R$ 1 bilhão.

Vorcaro também teria citado o ministro Alexandre Padilha, o ex-secretário-executivo Olavo Noleto e outros interlocutores políticos como participantes das articulações. As afirmações, entretanto, são acusações atribuídas ao empresário e não constituem comprovação de envolvimento dos citados em crimes.

O material teria sido encaminhado à Procuradoria-Geral da República em junho deste ano, durante negociações relacionadas a uma possível colaboração do ex-banqueiro. Conforme a reportagem, a proposta não avançou, e a Procuradoria considerou insuficientes as provas apresentadas para sustentar os pagamentos alegados.

A defesa de Vorcaro afirmou que haveria outros elementos capazes de auxiliar na verificação dos relatos, incluindo mensagens, registros de deslocamentos e informações sobre pessoas que teriam participado das entregas.

As revelações também recolocam em discussão o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro que provocou questionamentos políticos e investigações nos últimos meses.

Em maio, gravações divulgadas pelo The Intercept Brasil mostraram Flávio Bolsonaro solicitando recursos a Vorcaro para concluir a produção. As negociações envolveram pedidos que teriam chegado a R$ 134 milhões, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido transferidos, conforme informações divulgadas na época.

Flávio confirmou que procurou o empresário em busca de financiamento, mas negou qualquer irregularidade. O senador afirmou que os recursos seriam privados e destinados à realização do filme sobre seu pai.

Na ocasião, o parlamentar declarou que se tratava de um filho procurando patrocínio privado para uma produção cinematográfica privada, sem utilização de dinheiro público ou recursos da Lei Rouanet.

O candidato também afirmou que não ofereceu vantagens ao banqueiro, não intermediou negócios com o governo e não recebeu benefícios pessoais em troca da negociação.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Federal, com o objetivo de esclarecer a origem, a movimentação e a destinação dos recursos relacionados ao filme. Entre as suspeitas examinadas estaria a possibilidade de parte do dinheiro ter sido utilizada para outras finalidades, incluindo despesas relacionadas a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Em 30 de setembro, Lula voltou a explorar politicamente o episódio, afirmando que os valores associados à produção cinematográfica teriam servido para sustentar Eduardo Bolsonaro no exterior.

Agora, as declarações atribuídas ao próprio Vorcaro apresentam uma versão diferente sobre a natureza dos pagamentos relacionados aos dois filmes e ampliam os questionamentos sobre as relações mantidas pelo empresário com integrantes de diferentes grupos políticos.

Embora o ex-banqueiro tenha classificado o financiamento de Dark Horse como patrocínio regular, essa declaração não encerra a investigação conduzida pela Polícia Federal nem comprova, isoladamente, a regularidade de todas as operações.

Da mesma forma, os relatos sobre supostos pagamentos ao documentário de Lula e ao Instituto Lula ainda dependem de comprovação independente.

Segundo as informações atribuídas à reportagem da Veja, Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens financeiras de Vorcaro e afirmou que não autorizou terceiros a receber recursos em seu nome. Alexandre Padilha e Olavo Noleto também negaram envolvimento nas operações mencionadas.

A repercussão ganhou outro desdobramento nesta sexta-feira. O grupo jurídico Prerrogativas, ligado a aliados do presidente, teria anunciado a intenção de pedir à Polícia Federal uma investigação sobre a possibilidade de Vorcaro ter apresentado um depoimento falso para prejudicar Lula eleitoralmente. O grupo também contestou a existência de financiamento do documentário pelo empresário.

As informações colocam sob questionamento o uso político do financiamento de produções cinematográficas na campanha presidencial. O contraste entre as declarações atribuídas a Vorcaro sobre os dois filmes passou a integrar o debate eleitoral, especialmente diante das acusações feitas anteriormente contra Flávio Bolsonaro.

A apuração sobre os recursos destinados a Dark Horse continua, enquanto as acusações relacionadas ao documentário sobre Lula e ao Instituto Lula ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades.

O caso amplia a pressão por investigações que alcancem todos os envolvidos, independentemente de vínculos partidários, para esclarecer se os pagamentos tiveram finalidade exclusivamente cinematográfica ou se foram utilizados para obter vantagens em negócios públicos.

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