Após reeleição de Lula, empresários ameaçam demitir eleitores de esquerda e reacendem boicotes feitos durante o governo Bolsonaro

  • por Redação
  • Wednesday, 28 de October de 2026
Manifestações incluem restrições a contratações, ameaças de demissões e suspensão de doações; durante o governo Bolsonaro, campanhas pressionaram anunciantes de empresas, emissoras e programas de televisão, incluindo o Alerta Nacional, de Sikêra Júnior, na RedeTV!(Foto: Divulgação)

 

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no último domingo (25), provocou uma série de manifestações de empresários e comerciantes nas redes sociais. Entre as publicações estão demissão de funcionários que votaram no PT, pedidos de comércios para quem for de esquerda não frequentem estes locais, anúncios de que eleitores de esquerda não serão contratados e declarações de pessoas que pretendem suspender doações e ações sociais.

As manifestações ganharam repercussão em diferentes regiões do Brasil. Em grupos de mensagens e redes sociais, também começaram a circular listas de estabelecimentos comerciais identificados com a esquerda, acompanhadas de pedidos para que consumidores deixem de comprar produtos e contratar serviços dessas empresas.

O movimento ocorre após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Parte dos empresários que se manifestaram afirma que não pretende manter relações comerciais ou profissionais com pessoas que apoiaram a reeleição do presidente.

A reação trouxe de volta práticas de boicote político registradas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, quando empresas, comerciantes e veículos de comunicação identificados com a direita também foram alvos de campanhas de pressão econômica.

Um dos movimentos que ganhou destaque naquele período foi o Sleeping Giants Brasil, criado em 2020, que passou a identificar empresas que anunciavam em sites, emissoras e programas acusados de divulgar desinformação e discursos discriminatórios.

O grupo utilizava as redes sociais para divulgar em massa os nomes das marcas e questionar seus investimentos publicitários. As campanhas incentivavam consumidores a cobrar explicações das empresas e pressionavam pela retirada dos anúncios.

Um dos episódios de maior repercussão ocorreu em 2021 e envolveu o apresentador Sikêra Júnior, que comandava o programa policial Alerta Nacional, exibido pela RedeTV! e pela TV A Crítica, do Amazonas.

Conhecido por suas posições conservadoras e manifestações de apoio ao então presidente Jair Bolsonaro, Sikêra tornou-se alvo de uma campanha organizada pelo Sleeping Giants Brasil após declarações consideradas homofóbicas feitas durante seu programa.

A mobilização, identificada pela campanha #DesmonetizaSikera, passou a pressionar empresas que anunciavam na atração e nos canais digitais do apresentador.

Entre as marcas que anunciaram a suspensão de publicidade ou de patrocínios estavam MRV, TIM, Hapvida, Magazine Luiza, Nivea e Ford. Outras empresas também interromperam investimentos publicitários após a repercussão.

Segundo relatório divulgado posteriormente pelo próprio Sleeping Giants Brasil, 309 empresas foram alertadas sobre a presença de publicidade vinculada ao apresentador, das quais 206 responderam positivamente à campanha, retirando anúncios da televisão ou das plataformas digitais.

A pressão financeira gerou consequências para o programa e levou o apresentador a recorrer à Justiça contra o movimento. Em outubro de 2021, Sikêra conseguiu uma decisão judicial que determinava a interrupção da campanha de pressão sobre seus anunciantes.

O caso também provocou manifestações da RedeTV!, que condenou as declarações do apresentador e afirmou não compactuar com discursos discriminatórios.

A campanha contra Sikêra Júnior tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de mobilização para retirar recursos publicitários de um programa de televisão durante o governo Bolsonaro. Os organizadores defendiam a iniciativa como uma forma de combater discursos de ódio, enquanto críticos questionavam o uso de pressões econômicas contra veículos de comunicação.

Além do Alerta Nacional, outros veículos identificados com posições conservadoras, como a Jovem Pan e a Gazeta do Povo, também foram alvos de campanhas direcionadas a anunciantes.

Empresas ligadas a empresários apoiadores de Bolsonaro, como Havan, Riachuelo, Coco Bambu e Madero, também enfrentaram campanhas de boicote promovidas por opositores do então presidente.

Agora, após a reeleição de Lula, manifestações de parte dos apoiadores da direita retomam o uso de boicotes comerciais como forma de reação política. Algumas publicações recentes, porém, vão além das decisões de consumo e defendem que empregadores não contratem ou dispensem funcionários identificados com o PT.

Também circulam mensagens propondo a interrupção de doações de alimentos, roupas, dinheiro e outras formas de assistência social. Não existem, entretanto, dados nacionais consolidados que permitam determinar quantas empresas ou pessoas realmente suspenderam essas iniciativas.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) passou a acompanhar denúncias de assédio eleitoral. Até o fim da tarde de terça-feira (27), o órgão havia recebido 530 denúncias após o resultado das eleições. Os registros representam relatos encaminhados à instituição e não significam que todas as situações tenham sido comprovadas.

A legislação brasileira estabelece diferenças entre boicotes comerciais e práticas discriminatórias no ambiente de trabalho. Consumidores podem decidir onde realizar suas compras, mas a demissão de um funcionário exclusivamente por sua preferência política pode gerar consequências judiciais.

A Constituição Federal garante a liberdade de pensamento e de manifestação política, enquanto a legislação trabalhista protege empregados contra atos discriminatórios.

O histórico das campanhas realizadas durante o governo Bolsonaro e as manifestações posteriores à reeleição de Lula mostram que as disputas políticas também passaram a influenciar decisões de consumo, investimentos publicitários, contratações e relações profissionais.

Embora existam diferenças entre pressionar anunciantes, deixar de comprar em determinados estabelecimentos e ameaçar trabalhadores com demissões, os episódios demonstram como medidas econômicas vêm sendo utilizadas em conflitos políticos.

Até o momento, as informações disponíveis confirmam a circulação de campanhas de boicote e manifestações favoráveis a restrições de contratação. Não há, entretanto, um levantamento nacional que comprove uma onda de demissões efetivamente realizadas por motivos eleitorais.

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