Tragédia do voo TAM 402 completa 30 anos: queda de avião sobre casas em São Paulo deixou 99 mortos e marcou a aviação brasileira

  • por Redação
  • Saturday, 31 de October de 2026
Em 31 de outubro de 1996, um Fokker 100 caiu sobre uma área residencial apenas 24 segundos após decolar do Aeroporto de Congonhas. Acidente matou 95 pessoas a bordo e quatro em solo, tornando-se o maior desastre da aviação comercial brasileira até então.(Foto: Divulgação)

 

Neste sábado, (31) completam-se 30 anos de uma das maiores tragédias da história da aviação brasileira. Na manhã de 31 de outubro de 1996, o voo 402 da TAM caiu sobre uma região residencial do bairro Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo, poucos segundos após decolar do Aeroporto de Congonhas. O acidente provocou a morte de 99 pessoas, destruiu imóveis e deixou marcas profundas na história da capital paulista.

A aeronave, um Fokker 100 de matrícula PT-MRK, havia decolado às 8h26 com destino ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. A bordo estavam 89 passageiros e seis tripulantes. Nenhum sobreviveu. Outras quatro pessoas morreram em solo, atingidas pela queda do avião.

O voo durou aproximadamente 24 segundos. Logo após deixar a pista, a aeronave apresentou problemas que comprometeram seu desempenho e provocaram a perda de altitude. Sem conseguir manter o controle, os pilotos viram o avião atingir construções próximas à Rua Luís Orsini de Castro, nas imediações da Rua Jurupari, a poucos quilômetros de Congonhas.

O impacto foi seguido por explosões e um incêndio de grandes proporções. O combustível espalhado alimentou as chamas, que atingiram residências, estabelecimentos comerciais e veículos. Moradores precisaram abandonar suas casas às pressas, enquanto destroços ficaram espalhados pelas ruas.

Equipes do Corpo de Bombeiros, policiais e profissionais de emergência foram mobilizados para combater o fogo, procurar vítimas e isolar a região. A destruição dificultou o trabalho de resgate e a identificação dos corpos.

A notícia provocou comoção em todo o país. Familiares dos passageiros se deslocaram até o aeroporto em busca de informações, enquanto as primeiras notícias ainda apresentavam dificuldades para confirmar a identificação das vítimas e as circunstâncias do acidente.

A investigação conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira, identificou uma sequência de falhas relacionadas ao sistema de reversão de empuxo do motor direito.

O reversor é um dispositivo utilizado normalmente após o pouso para ajudar a reduzir a velocidade da aeronave. No voo 402, o equipamento abriu indevidamente durante a decolagem, justamente quando o avião precisava de potência para ganhar altitude.

A abertura inesperada provocou uma situação crítica. Os pilotos tentaram recuperar o desempenho da aeronave, mas não conseguiram identificar imediatamente a origem do problema. O curto intervalo entre a falha e a queda impediu uma recuperação segura.

As investigações apontaram que os sistemas de alerta disponíveis não forneceram informações suficientes para que a tripulação reconhecesse rapidamente a condição do reversor. Também foram analisadas as características técnicas da aeronave, os procedimentos adotados pelos pilotos e as limitações dos mecanismos de segurança.

As gravações da cabine registraram os momentos finais do voo, incluindo os alertas acionados quando o avião já perdia altitude. A investigação concluiu que as condições meteorológicas eram favoráveis e que o peso e o balanceamento da aeronave estavam dentro dos limites operacionais.

O relatório final, divulgado em dezembro de 1997, apresentou recomendações para aperfeiçoar os mecanismos de travamento dos reversores, os sistemas de alerta e o treinamento das tripulações. O acidente passou a ser estudado como referência na prevenção de falhas relacionadas ao funcionamento desses equipamentos durante etapas críticas do voo.

Entre as vítimas estava o médico cardiologista José Rahal Abu Assali, de 45 anos, que viajava ao Rio de Janeiro para participar de um congresso de cardiologia, onde faria uma palestra. Ele deixou a esposa, Sandra Assali, e dois filhos, que na época tinham sete e quatro anos.

Naquela manhã, Sandra havia levado o marido até Congonhas. A despedida foi rápida, com um beijo e um até logo, já que o retorno do médico estava previsto para o mesmo dia. Aproximadamente 40 minutos depois, ela recebeu a notícia de que um avião havia caído nas proximidades do aeroporto.

Inicialmente, as informações sobre o acidente eram desencontradas. Segundo Sandra, a companhia aérea chegou a informar que a aeronave envolvida seguia para Brasília, o que provocou momentos de incerteza entre os familiares. Pouco depois, foi confirmado que o avião acidentado era o mesmo em que seu marido estava.

A tragédia mudou completamente a vida da família. Sandra passou a dedicar parte de sua trajetória à defesa dos direitos de pessoas que perderam parentes em acidentes aeronáuticos.

Em maio de 1997, seis meses após a queda do voo 402, foi fundada a Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa). A entidade passou a oferecer acolhimento, orientação e apoio às famílias, além de atuar na preservação da memória das vítimas e na defesa de melhorias na segurança aérea.

Sandra tornou-se presidente da associação e uma das principais representantes desse movimento no Brasil. Ao recordar a morte do marido, destacou que a perda interrompeu os planos construídos pelo casal, mas também deu origem a uma trajetória de atuação em favor de outras famílias atingidas por tragédias semelhantes.

Na época, o acidente do voo 402 foi considerado o mais grave da história da aviação comercial brasileira em número de mortes. A queda sobre uma região densamente povoada também levantou discussões sobre os riscos das operações aéreas próximas a áreas residenciais.

Dez anos depois, em setembro de 2006, a colisão entre um Boeing 737 da Gol e um jato executivo Legacy, sobre a região amazônica, provocou 154 mortes, superando o número de vítimas do desastre da TAM.

Em julho de 2007, outro acidente envolvendo a companhia marcou a história do país. O voo TAM 3054, operado por um Airbus A320, ultrapassou os limites da pista de Congonhas durante o pouso e atingiu um edifício nas proximidades, deixando 199 mortos. Até hoje, permanece como o acidente aéreo mais mortal ocorrido em território brasileiro.

Mais recentemente, em agosto de 2024, a queda de um ATR 72 da Voepass, em Vinhedo, no interior paulista, matou 62 pessoas.

Embora tenha sido superado em número de vítimas por outros desastres, o acidente do voo 402 permanece entre os episódios mais graves da aviação nacional. Sua investigação contribuiu para o aperfeiçoamento de procedimentos técnicos, treinamentos e mecanismos destinados a evitar falhas semelhantes.

Três décadas depois, a região onde o avião caiu passou por transformações, mas a lembrança daquele 31 de outubro permanece entre moradores, familiares e profissionais que participaram do atendimento à ocorrência.

As imagens das casas destruídas, dos destroços espalhados pelas ruas e do trabalho das equipes de resgate se tornaram registros históricos de uma tragédia que mobilizou o país.

O desastre também demonstrou como uma falha técnica durante a decolagem pode comprometer uma aeronave em poucos segundos, especialmente quando a tripulação dispõe de pouco tempo e altitude para reagir.

Neste sábado, 30 anos após o acidente, a memória das 99 vítimas permanece ligada à história da aviação brasileira e à luta de familiares por segurança, transparência e assistência às pessoas atingidas por desastres aéreos.

A queda do voo 402 da TAM não representa apenas um dos acidentes mais graves já registrados em São Paulo, mas também um marco nas discussões sobre prevenção, responsabilidade e aperfeiçoamento dos sistemas de segurança da aviação.

Três décadas depois, a tragédia continua sendo lembrada pelas vidas perdidas, pelas famílias que tiveram suas histórias interrompidas e pelas mudanças que ajudou a impulsionar na segurança aérea brasileira.

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